domingo, 27 de maio de 2012

Coloridos, necessários e esquizofrênicos

Os lentos e pesados passos após insones segundos na escada rolante, que hoje nem é mais escada (já que agora viraram exibidas esteiras de metal), nos colocam de novo à frente do mesmo quadro: a compacta e sofrida visão dos carrinhos que esperam. Esperam e sonham que alguém os escolha para mais um breve passeio. Passeio que os libertem, mesmo por minutos, de suas vidas. Tão paradas, vazias e sem sentido quanto conversa de elevador com o vizinho chato do prédio.

Às vezes, até mesmo suas rodas, travando por falta de manutenção, estragam a parte mais feliz da jornada: o ato de fazer as curvas entre as seções, que se torna mais tenso que exame do Detran sem direção hidráulica. A ordem das prateleiras, aparentemente a mesma de sempre, é uma grande farsa. Na calada da noite, algum perverso agente de camisa pólo mudou de lugar justamente algo que precisamos e, no meio do trajeto, descobrimos que é necessário voltar. A já amassada lista de compras, o cupom das ofertas da semana e o panfleto da farmácia em anexo (que ainda iríamos hipocondriacamente visitar) são descartados. Não existe mais (se é que existiu algum dia) beleza nos corredores úmidos e coloridos. Acaba a paciência de desmascarar placas com falsas promoções e de ler com atenção os rótulos de cada um dos produtos, estrategicamente impressos em fontes minúsculas por seus fabricantes. Jogamos tudo no carro para terminar o suplício o quanto antes pois já dói nosso peito e falta muito pouco para o sorvete e as polpas de fruta deixarem nosso mundo.

De forma cada vez mais cruel, os dilemas persistem e chega a hora da última das escolhas: A fila "rápida" e longa ou a bem pequena com só mais um condenado em nossa frente (cujas compras dão sempre problema na hora de passar o preço ou acaba a bobina do caixa na hora de gerar a nota). Dessa vez a escolha não fez diferença. Depois de horas de espera, desfile de cada item na esteira e embalagem nas sacolas, enquanto admiramos a desenvoltura da mulher dos patins,  a central do cartão resolve ficar fora do ar no hora do pagamento. Outras tentivas em vão ... deixemos tudo pra trás. O carrinho, as compras e momentos da vida que não vão mais voltar. Pelo menos até semana que vem ...

4 comentários:

  1. Então! Isso me fez lembrar nosso amigo TBS, que certa vez relatou algo parecido no que diz respeito à hora do caixa. Bom texto André, um pouco melodramático, não sei se é esta a palavra, mas foi proposital que eu sei! Parabéns :)

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  2. Companheiro, mesmo pra quem como eu, tem filho pequeno e usa o supermercado como quase um programa de lazer (para ele) compartilho muitos de seus dramas e lembro ainda de um pitoresco episódio ocorrido comigo: Depois de cumprir a árdua missão de conseguir tudo que estava na lista tive meu carro "roubado" por alguém que se confunfiu e trocou de feira.
    Abraço

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  3. Sem contar que a fila do lado sempre anda mais rápido que a sua...

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    1. Bem lembrado nobre amigo Play, bem lembrado. ;)

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